quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

discurso da colação de grau

Meus caros amigos,
Queria poder reunir o alfabeto numa dança compassada de tantos ritmos quantos fossem necessários à formação das mais belas e singelas palavras capazes de traduzir o que significou esse qüinqüênio, esse período de cinco anos em que nos aventuramos em busca de respostas e em prol da concretização de inúmeros anseios. Iniciamos incertos, imaturos, ingênuos, inseguros.
Chegamos à universidade com um intuito inicial único: aprender direito. E nos deparamos com um mundo novo à nossa frente: novos colegas, novos professores, uma universidade, novas responsabilidades... e artigos e mais artigos, leis e mais leis, códigos e mais códigos; um tanto capaz de desafiar qualquer estudante de exatas em cálculos infindáveis. E lá no início estava o saudoso professor Armando José da Costa Carvalho nos lecionando, sob peculiares sapiência e experiência, a primeira definição de direito: “é o sistema de normas coercitivas que rege o agir social humano, objetivando a Justiça e o Bem Comum”. De início, tais palavras devem ter soado meio que incógnitas para nós, ainda desprovidos da vivência prática que hoje sabemos ser tão essencial ao conhecimento do direito. E das tantas lições sobre o direito que aprendemos durante esses anos, escolhi uma para representar todas as outras, a qual, embora sucinta, é de uma significação brilhante... nas palavras de um outro grande mestre, o professor homenageado Ubiratan de Couto Mauricio: direito é bom senso. E bom senso, meus caros, infelizmente é o que mais falta, é o que há de mais escasso em nosso corpo social. Eu vejo a humanidade clamar por justiça, reivindicar direitos, apontar os erros alheios, exigir solução para os problemas, encher a boca pra dizer que não crê na justiça. Mas de outra banda, eu escuto a justiça, enquanto órgão, poder e valor, suplicar por humanismo, por condutas mais sensatas, por um mundo mais humano. É, mais humano. E nós, meus queridos, somos uma fração do amanhã. E ainda que em pouca soma, não devemos e não podemos abandonar esta luta: a luta por um mundo mais humano, a luta pelo direito, a luta pela própria justiça. Justiça, que coadunada com a verdade, alumia o caminho para a paz. Não foi à toa que escolhemos tal nomenclatura para a nossa turma. E tenho certeza de que além do aprendizado jurídico ao longo desses anos, aprendemos muito sobre a vida, sobre o convívio, sobre o singular que se torna plural em inúmeras situações de cumplicidade, de generosidade, de amizade. A lição que levamos pra casa sem que seja necessário atribuir nota é a que reúne a importância de um sorriso, de um abraço e de uma mão estendida para oferecer auxílio. Chegamos ao fim assim: unidos. E Chegar ao fim e deslumbrar a noção de que estamos apenas no começo é, talvez, a única certeza que nos preenche com virtuosidade nesta etapa da vida. É como o afago terno e brando que consola a dor da despedida e celebra a felicidade da renovação, revestindo-nos de um brio viçoso e essencial à continuidade da estrutura que se ergue em meio aos sonhos e à realidade. Fechar ciclos, meus caros, por mais cotidiano que se afigure, desvela sempre um quê de complexidade, e por isso mesmo é que seremos eternos guerreiros em busca das incríveis descobertas triviais. O pra sempre sempre acaba e como cada estação que passa, as pessoas vêm e vão numa inconstância saudosa. Eu já sinto saudade de vocês! Hoje, um misto de sentimentos se faz erguer por entre os corações, os nossos corações, que mais uma vez se deparam com as lembranças apressadas num ritmo frenético, revestindo a saudade em sépia e se unindo em prol da celebração de mais uma conquista. Somos instinto e razão; coragem e medo travando batalhas; sorriso e lágrimas compartilhando a mesma face; fios de esperança pendendo sob os espectros de outras incertezas que agora desabrocham com bastante intensidade. Decidamos e ajamos ao longo do nosso caminhar com sensatez, com sobriedade, com inteligência. O mundo não necessita apenas de mentes brilhantes e extraordinariamente intelectivas, e sim de gente sábia, que possa ponderar e buscar o equilíbrio em atitudes que sejam condizentes com a condição humana.

Por fim, quero ler um texto que escrevi, no qual reúno alguns conselhos que hoje, aos meus 21 anos de idade, considero essenciais para o nosso cotidiano:
Comece com um sorriso: tudo aquilo que está a sua volta vai se encher de cor, como um arco-íris nos dias de sol e chuva; olhe para si: os seus braços, as suas mãos, os seus dedos, as suas unhas e o restante do seu corpo revestido de pele, carne e osso; sinta-se: o seu instinto humano é voraz, e bastante capaz; imagine-se num filme, faça silêncio, escute em si a trilha sonora: um jazz, um rock, um samba, um bolero, um chiado qualquer de notas que combinem com você; levante-se e dance, mas mexa bem o corpo, crie passos, crie ritmos, crie o seu gingado próprio; agora grite, em alto e bom tom, num volume capaz de se fazer presente em seu íntimo: acorde os seus problemas, faça-os também dançar e rodopiar até se cansarem de existir; vá até a janela, permita-se sentir o oxigênio em seus pulmões; feche os olhos, inspire, expire e cante: a melodia que surgir, a canção guardada numa fita, a mensagem que um dia foi vetada pela censura; declare-se, declame o seu ‘bom dia’ ao dia que se inicia; esqueça o mundo a sua volta: os outros olhos, as outras bocas, os outros ouvidos, os outros narizes; o negócio é com você. As próximas horas serão suas, então escolha a roupa que mais lhe agrada e os sapatos mais confortáveis, se preferir, fique descalço; misture as texturas e as estampas, a combinação é toda sua; desfrute os cheiros: do café, do ovo frito, do pão assado, da manhã se iniciando; olhe pro céu, contemple o azul, ou até mesmo o cinza que se fizer nublado; procure nuvens, encontre desenhos, imagine os pássaros traçando a liberdade no ar. Use e abuse dos verbos: aja; invente a sua realidade, os seus afazeres e os seus compromissos; e lembre-se: há tempo para tudo. Preocupe-se menos, tenha a consciência do seu melhor e assim aja, somente isso. Conte degraus, use as escadas, movimente-se; repare o jardim, as borboletas e as flores coloridas; entre em contato com o verde das plantas, toque-as suavemente e divirta-se com o orvalho matinal. Não crie conceitos, esqueça-se de tudo aquilo que definiu no dia anterior, agora tudo é novo, ignore os seus ‘pré-conceitos’ e inove: atribua vírgulas e ponto-e-vírgulas nas suas frases, extrapole os adjetivos e amplie os substantivos. Viva a tarde com o doce das sobremesas e a despedida do astro-rei; faça um esforço para presenciar esse fantástico acontecimento diário: o pôr-do-sol. Reflita a noite e para a noite, haverá sempre uma lua mudando de formato; conte estrelas, imagine que para cada uma há uma poesia. Construa laços, sejam de pano ou de afeto; dedique-se a exprimir os seus sentimentos logo quando sentidos, não os deixe petrificar e esfriar: eles farão uma imensa diferença no seu humor e ao seu próprio amor. Não se prive do inusitado, não tema as novidades; experimente experimentar; prove a si mesmo que os limites só existem quando se pensa pequeno e quando não se acredita no sentido da vida; seja real. Cultive a sinceridade, fale a verdade: conte segredos ao vento e mentiras a quem quer que seja necessário. Escreva cartas: envie-as a desconhecidos e aos velhos amigos; não permita que as boas lembranças esvaiam-se com os anos, compartilhe pensamentos positivos. Fotografe-se, felicite-se, presenteie-se. Chore, as lágrimas desanuviam os nervos, portanto não as esconda, liberte-as. Siga as tendências atuais: ‘use filtro solar’, ‘distribua abraços grátis’, ‘apaixone-se’, ‘escolha aquilo que o faz feliz’; e, em hipótese alguma, a qualquer momento dos seus dias, não se esqueçam do seguinte: sejam vocês, sejam mais humanos, sejam felizes.

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