Ouvia, impacientemente, aquele discurso despropósito acerca do romance inteligivelmente contraposto ao nosso deleite. Uma discrepância gritante, ensurdecedora do meu melhor senso de humor. Era a destruição da beleza intricada e cautelosamente construída. O enredo envolvia sentimentos complexos, a saber, o orgulho, o amor e o preconceito; enquanto os comentários constituíam um misto de futilidade e ignorância, um vazio de conteúdo.
Foi um momento de admiração e irritação simultâneas, em que as sensações confundiam-se e embaraçavam-se num nó. Relutei ao máximo repudiar a interferência da minha fiel atenção à estória que apreciava, e consegui. Deixei passar sem que fizesse daquilo uma razão de conflito entre dois pensadores ideologicamente distintos. Respeitei, embora contrariado, a posição alheia de desrespeito ao argucioso enredo que nos estava sendo exposto.
E por ter silenciado ao incômodo reluzente de tal situação é que reflito sobre a diversificada construção humana do raciocínio próprio, e o reflexo conseqüente que há de gerar num âmbito social, assim como sobre as manobras a serem utilizadas a fim de alcançar o equilíbrio do convívio social. É questão abstrusa, humanamente complexa. Por vezes, esses pensamentos dominam-me de uma forma que chegam a contrariar-me.
Impressionante como as visões, por mais banais que sejam os assuntos à vista, são distintas. É uma constante afronta posta como prova de fogo à sobrevivência na selva de pedras recheada de seres de uma só espécie, embora psicologicamente distintos.
Não sei bem se foi um erro, o comentário, mas foi perturbador. Mas ‘salve, salve’ o respeito às percepções alheias; a existência de certas hipocrisias e infortúnios constitui o sistema dos freios e contrapesos humano.
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