quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

súbito

Com a minha sobriedade habitual, embora com o corpo um tanto febril, contemplo o cair da tarde. Os últimos feixes de luz, já tímidos sob um céu de cinzas nuvens, deixam-se escapar por entre os suntuosos edifícios que habitam a selva de pedras. Uma leve brisa, úmida e abafada, aventura-se sobre minha pele, aliviando o calor que se debulhava em filetes de suor. Umas poucas árvores se fazem evidentes, espelhando o verde enfadado que relutam em sustentar ante os impiedosos artifícios dos gases poluentes que infestam todo o ar. O tempo parece inerte, como se o mundo houvesse silenciado seus algozes tenores advindos dos automóveis e demais artefatos humanos. Uma espécie de letargia, então, acomete-me em devaneios que logo cedem aos pensamentos com máscaras de sonhos. Paraliso-me, deslumbrando as vontades que me preenchem. As dores físicas, dispersando-se sobre os músculos com toda a voracidade que lhes apetece, prognosticam mais uma crise de garganta. A minha faringite crônica, há tempos diagnosticada pelos ofícios medicinais, tem sido a companhia fiel de todos os meses. E muito embora seja ardil e astuta em suas visitas, desfruto-a pelo bom flanco que porporciona – revela-me uma deliciosa solidão que me remete às cores lívidas da essência humana.

4 comentários:

Dea disse...

como tudo na vida,sua faringite tem um lado bom. ficar só consigo mesmo sempre se faz necessário,ajuda no auto-conhecimento.
:*

. disse...

pelo menos dá pra apreciar a paisagem e pensar.
com a minha sinusite, eu não consigo nem piscar.
exato e muito esmerado.

Elenita de Castro disse...

as dores físicas também me fazem companhia nessas duas últimas semanas. começou com uma tensão explicável na região superior das costas (leia-se nuca e ombros), veio acompanhada de uma moleza, febre (alta e baixa) e todos aqueles outros sintomas nojentos que acompanham aquele quadro característico da virose. mas divergimos quando vc acha algo positivo em ficar estagnado e inerte a esse mundão, ridículo, porém, interessante.

Anônimo disse...

"...revela-me uma deliciosa solidão que me remete às cores lívidas da essência humana."

você sabe usar as palavras tão bem! tão bem! ;}

Um beijo! ;*