sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

natalício

Há valores que jamais conseguirei descrever, sobretudo aqueles que envolvem o amor. E embora triste a percepção, o seu brilho nos olhos me deram a certeza de que vale muito estar vivo.

Pela janela, o tempo passa lá fora. Dia e noite intercalam-se num pedaço de céu à deriva. Cinco fios, algumas folhas verdes e os pássaros que chegam sem avisar. O universo se resumiu a um parco espaço de quatro paredes, onde realidade e sonhos já não mais se distinguem. A vida decidiu traçar alguns limites, impondo suas próprias regras. É um jogo difícil. A pele responde bravamente, formando verdadeiras crateras. As articulações se rendem ao ócio. A lucidez já não se encontra em seu devido lugar, cedendo à variação mental. Já não há recordações, os rostos parecem máscaras inéditas e os nomes se recriam aleatoriamente. As dores físicas são muitas, mas ínfimas se comparadas às avassaladoras do coração. Os movimentos são poucos e raros. O silêncio corta a garganta, relutando à desvairada vontade de gritar. O sono vem e vai, sem hora, sem destino. E as lágrimas escorrem pela face, numa sempre dolorosa despedida.

Sessenta e seis anos, foi essa a idade do meu natal.

Um comentário:

. disse...

o breve intervalo pelo qual estamos vivos assim, tão cru e tão bonito.