
As cores tímidas e primárias estampadas na imensidão oceânica do branco regular das suas telas ganharam vida, exteriorizaram formas abstratas e caricaturaram os seres que por tanto tempo habitaram sua mente. Observava aquele resultado fantástico das suas obras que há pouco eram anônimas e agora estavam expostas naquele imenso rol de um teatro bem freqüentado, sendo admiradas por estranhos que talvez o tenham inspirado durante os seus longos passeios imaginativos. As lembranças emergiam como a água que jorrava da fonte decorativa da praça visivelmente disposta sob as imensas janelas do salão. E ali, como se a realidade circundante estivesse paralisada, dedicou-se ao seu passado, lembrou-se de como eram as suas tardes cheias de inspiração, das prolongadas e acolhedoras madrugadas e também das manhãs de sol que reluziam vida em seu coração e na sua mente. Seus pincéis, pequenos e grandes, de várias idades, estiveram sempre ao seu lado, fiéis como de fato seus melhores amigos, exibindo suas estonteantes carcaças chamuscadas de tinta e relutando em perder sua inutilidade diante da tarefa prazerosa de se fantasiar, por alguns instantes, das inúmeras cores que construíam os fantásticos cenários e os abandonavam para que as próximas realizassem a mesma empreitada. Seu ateliê, arcabouço de inúmeras invenções imagéticas, guardava os segredos dos momentos de alucinação e inconsciência, sempre como o melhor dos abrigos, enrustido pelo odor peculiar das viscosas substâncias que encobriam as aquarelas, era o seu segundo universo, tão particular quanto as idéias que tinha ao observar a vida em suas nuances. Seu maior fascínio era sair às ruas e deparar-se com os estranhos, tão comuns quanto os outros, vestindo sentimentos e esbanjando frieza, que o faziam embarcar em suas desbravadas aventuras ao longo dos fios sintéticos das telas através das quais seu extinto de bom observador florescia e fazia brotar as imagens. Seu perfeccionismo simétrico era quem o sempre atormentava, insistindo no burilar constante dos seus traços e o persuadindo a não findar sua arte enquanto não sentisse o prazer daqueles que concluem uma luta árdua com saldo positivo. A quantidade de horas diante dos pálidos painéis, ainda sem molduras, não importava, contanto que fosse suficiente para refletir a sua imaginação. A certeza única que tinha era a do propósito de sua vida, qual seja a de recriar o mundo a sua volta do modo que mais o satisfizesse, sem preocupar-se com as molduras que futuramente iriam encurralar sua criação. Foi uma vida de felicidade; recriou o que viu e o que sentiu e agora possui bem diante de si o resultado da evolução das cores revestidas da textura inebriante da imaginação.
2 comentários:
ta lindão.
adoourei!
te amo,meu irmãozinho lindo.
A textura da imaginação...
somos tods pintores
:)
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